Vanessa CornélioMeu nome é Vanessa Cornélio, sou mulher, adoro homens e me interesso por homens e mulheres. Mas não sou bissexual e muito menos assexuada (como alguns pensam). Minha situação financeira não é das melhores no momento, mas hoje acredito que possa fazer algo a mais e estou bem feliz por ter apostado nisso, que prestigia meu corpo e minha alma. Sou cadeirante desde os 16 anos, o que no momento já representa mais da metade da minha vida, já que estou a poucos dias de fazer quarenta anos.

Uma coitadinha para muita gente, mas para muitos outros também sou atriz, performer, comunicadora, criativa (pasmem, essa já foi a minha profissão), artista. Sincera para alguns, mal educada para outros; inteligente para uns, confusa para outros… E ninguém deve ficar chateado por ter pensado assim, porque afinal quem não é confuso não parou pra pensar ou pensou só uma perspectiva.

Daqui de onde posso ver, toda diversidade no mundo merece respeito e não piedade. Acredito mesmo que as pessoas não estão fadadas a uma personalidade, mas podem ser exatamente o que realmente são (…) e conviverem harmoniosamente. Mas também sei que o mundo todo está engessado em convenções, sugestões midiáticas e outras patifarias que fazem geral pensar e/ou desejar isso ou aquilo, desde o que se refere a objetos, até o que se refere a pessoas. E quando se refere a pessoas o bagulho fica louco, porque gera uma rede de emoções que não só afetam o indivíduo, como se estende ao modo como vivemos em comunidade.

Mulher comprando produto

“O mundo todo está engessado em convenções, sugestões midiáticas e outras patifarias.”

Sobre isso eu quero falar, empatia! Mas esperem de um tudo. Não é por que eu sou cadeirante, que esse seja o meu único assunto.

 

Pensar em melhores condições urbanas e de vida, não sucede sem que o material humano envolvido esteja apto a enxergar o mundo como espaço comunitário, onde todos podem usufruir dos direitos, conquistados e os que hão de vir, e as condições sócias urbanas, de maneira consciente e racional como nos foi concedido… Seres Humanos de todas as cores, credos, raças, opção sexual e condição física/mental, cada um a sua maneira e em pleno exercício do direito de não ser um padrão.

Olhando a minha volta eu vejo pessoas diversas, uma ou outra tem a perna mais curta, falta um dedo, tem estrabismo, problemas de fala, audição e visão. Engraçado nisso é que a maioria não quer que isso seja mencionado e gostariam que passasse batido. Mas não pensam duas vezes em abrir um processo de isenção de impostos para aquisição de veículo automotor, usando essa mesma deficiência como justificativa. Isso sem falar das questões emocionais que afetam a todos, mas que só tem importância para desmerecer o sofrimento alheio. Ser Humano disputa cada coisa!!

Falta empatia! Penso que se as pessoas pudessem ser (e podem) um pouco mais vulneráveis, mas a sociedade (quem é a sociedade?) está o tempo todo nos cobrando (quem além de nós podemos fazer isso realmente?) uma postura imbatível, aquém da nossa natureza, nos tirando da frequência vibratória da terra, nos empurrando para abismos pessoais de frustração e melancolia. (quem além de nós podemos fazer isso realmente?)

Fica a pergunta que ecoa em mim mesma. Enquanto isso vou cozinhar e pensar, que sorte a minha!


Vanessa Cornélio

Cadeirante há mais de duas décadas, Vanessa encontrou nas artes cênicas um meio eficaz para questionar e refletir sobre os estereótipos que povoam o universo da pessoa com deficiência.