Para um jornalista e escritor, confesso que leio poucos livros. Falha minha. Mas, não tem mágica, literatura é hábito que se adquire na infância. Acontece que nessa fase da minha vida, eu associei literatura a experiências traumáticas, cansativas e amedrontadoras.

Quando eu era moleque e estava no colégio, fazia parte da grade curricular a chamada “Aula de Biblioteca”. Só que a livraria da escola ficava no terceiro andar e, naquela época (meio dos anos 90), elevador, rampa, eram impensados, quem tinham que me ajudar eram os coleguinhas de turma. Agora, imaginem: três crianças de nove anos carregando sessenta e sete quilos (quarenta meus e vinte sete da cadeira), por quarenta e cinco degraus. Preciso falar que ficava travado de medo? Acho que não! Sem contar que eu nem bem chegava, minha veia já saltava pensando na volta.

Eu começava a semana já pensando: “Ai meu Deus! Biblioteca de novo! Chega não, terça-feira! Papai do Céu, faz a biblioteca estar em reformas! Eu prometo que, se o Senhor fizer isso, nunca mais “respondo” para os meus pais e como carne de panela todo dia (detesto carne de panela!!!).

E não para por ai! Você era obrigado a ler um livro por semana como tarefa de casa. Hoje é tudo gourmet: PDF, Amazon e o caramba. Na minha época, era no papel e só. Eu sentava, de boa, lia lá o que tinha pra ler, mas, uma hora a página acaba…. e pra mudar de folha?

imagem de um livro gigante de pedra

Mmmmmmaaaaaannnnoooo…..Que transtorno infernal! Eu fazia tanta força para virar o bagulho que, chegava certa hora, eu já não estava lendo, estava fazendo musculação para o dedo indicador. Eu olhava para o pobrezinho, ele já tinha mudado de cor, era vermelho agora.

Quando não, eu conseguia mudar, mas, dezenas de folhas de uma vez só. Estava na página sete, do nada, já tinha pulado para a noventa. Até você voltar, seu foco de prazer já tinha mudado, você não queria ler o livro mais, já estava dominado pela vontade de picotá-lo no dente.

Dizem por ai que a literatura te leva a viajar por diversos lugares. Verdade. Graças a essa saga, hoje, sei falar palavrões até em mandarim medieval do séc. XV.


Gabriel Pereira

Trinta anos, jornalista, escritor, sãopaulino semi-fanático, solteiro "sem alternativa", "quase ex-gordo" , amante de política (por incrível que pareça), filho mais novo da Dona Paula e do "Crovão", sobretudo, um cara que abomina Coxinhas Muito Coxinhas "Esquerdinhas muito esquerdinhas" , o mimimi e o politicamente correto.