Não sei se isso acontece com vocês, mas têm coisas que pertencem à chamada “vida adulta” que eu, definitivamente, não sei lidar; a principal delas é o RG. Tenho certeza que Deus se enganou; as pernas boas, que eram para mim, ele colocou no documento. Chego da balada, guardo o negócio na estante do quarto e vou dormir, sem ninguém, só eu, que NÃO ANDO! No dia seguinte, abro a gaveta da estante, o “bagulho” sumiu. Não sei o que acontece! Juro que foge do meu poder de compreensão.

Esses dias fui ao “Poupa Tempo” tirar a 44ª segunda via do meu RG. Cheguei lá de boa, já com a foto 3×4 em mãos para economizar tempo, e sentei na cadeira do guichê. Mano, a hora que o funcionário percebeu que ia atender um deficiente, aconteceu um negócio muito estranho, o sujeito foi ganhando uma cor amarelada e começou a tremer sem parar.

O cara saiu do eixo total: suava frio, saia lágrima do olho dele, não estou brincando. Sem contar que, do nada, ele ficou gago: “O se…se….nho…nho….nhor pre… pre.. Precisa carimbar o pa…pa… pa… pel para pa… pa… pa.. parecer que vo…vo..cê assi… no…nou o RG”.

Ao ouvir essa gaguejada de pavor, de imediato, olhei para cima e comecei a conversar com o Divino. “Deus, me prepara um balde bem cheio de tolerância no capricho, porque hoje promete ser um dia daqueles que levam o meu ‘bom coração’ ao limite total e absoluto”.

Na hora que ele foi passar o carimbo no meu dedo, vocês precisavam ver a quizomba que o cidadão aprontou naquele lugar. Derrubou a carimbeira, sujou o chão de tinta preta, fez uma “lambuzeira” sem fim. Ele precisava passar o carimbo no meu polegar esquerdo. Juro que sai de lá com tinta no nariz, de tão descompensado e nervoso que o cara estava.

Geralmente, quando isso acontece, eu dou aquela “zuada” básica. Mas, percebi que, se fizesse isso ali, haveria uma grande chance de eu sair de lá só no fim da Olimpíada de 2032. Então, com toda paciência, tentei ajudar o sujeito. “Cara, te juro que não vou levantar da cadeira e atirar em você! Sou deficiente de verdade! Só quero fazer o RG e ir para casa na paz de Cristo! Prometo”!

Eu, pensando: “O camarada deu esse chilique todo conversando comigo com um balcão entre nós dois, se eu encosto nesse cara, certeza que ele infartava.


Gabriel Pereira

Trinta anos, jornalista, escritor, sãopaulino semi-fanático, solteiro “sem alternativa”, “quase ex-gordo” , amante de política (por incrível que pareça), filho mais novo da Dona Paula e do “Crovão”, sobretudo, um cara que abomina Coxinhas Muito Coxinhas “Esquerdinhas muito esquerdinhas” , o mimimi e o politicamente correto.